Ingredientes:
- 1 xícara de saudade
- 1 pitada de lembrança
- Amor à gosto
Lembro-me claramente do cheiro da cozinha da casa da minha avó.
Morei com ela muitos anos e sempre soube as horas sem precisar olhar no relógio, só pelos diversos cheiros que se espalhavam pela casa.
Milhares de vezes acordei às 06:00 com o cheiro de café recém coado e biscoito assando no forno. Antes mesmo de voltar a dormir, ouvia os passos dela em direção ao meu quarto, para que eu não perdesse o horário da escola. Quando voltava da escola, eu poderia andar de olhos fechados que seria capaz de identificar a casa pelo cheiro de comida fresquinha, que apontava a hora do almoço (às 11:00). Depois do almoço, o cheiro de chá de cascas de laranja, que ela reutilizava apenas para perfumar a cozinha. Às 3 da tarde vinha o cheiro do café recém coado novamente, acompanhado, desta vez, de broas, bolos, pães de queijo ou biscoitos frito. E, por fim, às 6 da tarde o delicioso cheiro de sopa... o conforto que avisava que o dia estava no fim.
Que saudade eu tenho da minha Avó.
PS. Uso a palavra "cheiro" ao invés de "aroma". Aroma é coisa de gente mais requintada que eu. :-)
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Sopas - Rubem Alves“Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.
Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa...
Para mim a sopa é um sacramento de intimidade: um objeto físico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros lugares, outros tempos. Faço e gosto de sopas frias. Sopa fria de maçã, por exemplo, tem um sabor exótico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas o elemento sacramental: elas não me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espaço de intimidade.
Sopa é comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de maçã, é nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. É humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeirão de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer.
(...)
A sopa é mansa. Não é para ser comida. A colher é um côncavo, um vazio, o feminino. O gesto é o de ‘colher’: a colher colhe, sem violência. Sempre tive implicância com uma etiqueta esnobe, para a tomação de sopa: que o delicado é tomar a sopa com o lado da colher, e não com o bico. Ora, ora - eu argumentava - por analogia a gente deveria comer comida sólida com o lado do garfo - o que não é possível. De fato. Não é possível. É que o garfo pertence à ordem dos talheres pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence à ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente...
(...)”